Se a nossa vida está oculta em segurança com Cristo e a nossa âncora de esperança (elpis) está cravada na eternidade, qual deve ser a nossa relação com o mundo em que vivemos hoje? A Bíblia é clara: não fomos tirados do mundo no momento em que fomos salvos. Continuamos tendo empregos, pagando impostos, construindo famílias e enfrentando as realidades da vida terrena. No entanto, o nosso status mudou de forma radical.
“Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” — Filipenses 3:20
A colônia e a cidadania (Politeuma)
Filipos era uma colônia oficial do Império Romano. Embora geograficamente distante da capital, os seus habitantes possuíam cidadania romana: vestiam-se como romanos, falavam o idioma de Roma, aplicavam as leis de Roma e tinham orgulho de representar o Império em território estrangeiro. Eles nunca deixariam a cultura local absorver a sua identidade.
Politeuma refere-se a uma comunidade de cidadãos que vivem em terra estrangeira, mas mantêm lealdade, cultura e constituição vinculadas à sua pátria de origem. O ensino é revolucionário: o salvo é, na prática, um colonizador espiritual. Estamos na terra, mas a nossa politeuma — a cidadania primária e a lealdade suprema — pertence aos céus.
O crente regenerado não é um terráqueo tentando ir para o céu; é um cidadão dos céus temporariamente acampado na terra. Como embaixadores de outro mundo, respeitamos as leis humanas e fazemos o bem à cidade onde moramos, mas nos recusamos a adotar a cultura de pecado do kosmos, porque ela ofende a constituição da nossa verdadeira Pátria.
Estrangeiros e peregrinos
É por causa dessa politeuma que Pedro nos chama de “peregrinos e forasteiros” (1 Pedro 2:11). Um forasteiro não cria raízes profundas demais na terra onde está de passagem. Ele constrói, trabalha e ama, mas não trata a sua barraca de acampamento como se fosse a sua mansão eterna.
A característica de um salvo é que ele perdeu a ilusão de que este mundo caído pode lhe oferecer satisfação plena. Ele sabe que a terra, com as suas injustiças, doenças e lutos, não é o fim da linha. O seu coração anseia pelo momento em que o Rei retornará para buscar os Seus embaixadores e instaurar de forma definitiva o Seu Reino de justiça.
O chamado para a maturidade (Teleios)
Como cidadãos dos céus representando o Rei em terra estrangeira, não podemos permanecer como crianças espirituais para sempre. No grego, teleios significa alcançar um estágio de plenitude: estar maduro, completo, atingir o alvo para o qual se foi criado.
O escritor de Hebreus contrasta o crente infantil — que ainda se alimenta de “leite” e é facilmente derrubado por qualquer crise — com o crente maduro (teleios), que consome “alimento sólido” e tem as suas faculdades treinadas para discernir entre o bem e o mal (Hebreus 5:13-14).
Eis a pergunta provocativa que a salvação nos faz: as suas lutas espirituais de hoje ainda são exatamente as mesmas de cinco ou dez anos atrás? O salvo não estaciona na linha de chegada da sua conversão; ele entende que a salvação é a linha de partida para um crescimento constante, moldando o caráter para que, quando o mundo olhar para ele, consiga enxergar um vislumbre cristalino da Pátria Celestial.